O Deus dos Ostracizados: Como os Evangelhos Retratam o Encontro de Jesus com as Mulheres Marginalizadas
Resumo: Este artigo realiza uma análise narrativo-teológica de três pericopes dos Evangelhos que retratam o encontro de Jesus com mulheres em situação de marginalização extrema: a hemorrágica (Mc 5:25-34), a adúltera (Jo 8:1-11) e a mulher siro-fenícia (Mc 7:24-30). Objetiva-se demonstrar que a prática de Jesus constitui uma ruptura radical com os códigos de pureza e honra de seu tempo, reposicionando mulheres duplamente impuras e excluídas no centro da comunidade do Reino. Argumenta-se que estes encontros não são episódios marginais, mas revelações paradigmáticas do caráter de um Deus que se inclina especificamente para restaurar a dignidade e a voz dos que a religião e a sociedade descartam.
Palavras-chave: Jesus e as Mulheres. Marginalização. Pureza. Dignidade. Hermenêutica Inclusiva.
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Introdução: O Toque que Desafia um Sistema
Os Evangelhos não apresentam uma teologia sistemática abstracta sobre a mulher. Em vez disso, eles narram encontros disruptivos que desvelam, em gestos e palavras, a prática revolucionária do Reino de Deus. Em uma sociedade regida por complexas regras de pureza ritual, honra e patriarcado, certas mulheres encontravam-se em situação de ostracismo total. Este artigo examina três destas mulheres – uma impura por seu fluxo de sangue, outra impura por sua condição sexual e uma terceira impura por sua etnia e gênero – para revelar como Jesus, ao encontrá-las, subverte todo o sistema e oferece um novo lugar de pertencimento.
1. A Mulher Hemorrágica: A Impureza Ritual e a Ousadia da Fé (Mc 5:25-34)
Por doze anos, a mulher com hemorragia vivia em estado de impureza ritual permanente (Lv 15:25-27). Tudo e todos que tocasse tornavam-se impuros. Ela era uma excluída social, religiosa e física. Sua estratégia é a do desespero silencioso: tocar às escondidas as vestes de Jesus.
O momento do toque é um clímax teológico. Pela lei, Jesus deveria ter-se tornado impuro. Em vez disso, ocorre o inverso: a fonte de pureza e vida dele santifica e cura ela. Jesus, no entanto, não permite que o milagre ocorra em segredo. Ele insiste: “Quem tocou nas minhas vestes?” (Mc 5:30). Esta pergunta não é de repreensão, mas de convocação. Jesus força a multidão a parar para ver aquela que era invisível. Ele a chama para o centro, a chama de “filha” (Mc 5:34) – um termo de pertencimento familiar – e publicamente restaura sua dignidade, atribuindo sua cura à sua fé, e não a um ato mágico. Ela é salva e curada, mas, acima de tudo, é reintegrada.
A teóloga Elisabeth Schüssler Fiorenza (2007, p. 134) comenta:
“O relato da hemorrágica é a história de uma mulher que luta por sua autodeterminação e cura num mundo religioso que a define como impura e a exclui. A ação de Jesus não é apenas de cura, mas de justiça restaurativa, que a reconhece publicamente como sujeito de fé.”
2. A Mulher Adúltera: Entre a Piedade Violenta e a Graça que Liberta (Jo 8:1-11)
A narrativa da mulher adúltera é um exemplo clássico de como a religião pode ser instrumentalizada para a opressão. Os mestres da lei e fariseus a trazem como um objeto para um teste teológico (“Moisés nos ordenou… que dizes?” Jo 8:4-5). A mulher é completamente silenciada, uma mera ferramenta em um debate masculino sobre a lei.
A resposta de Jesus é um duplo ato de genialidade e graça. Ao escrever no chão e declarar “aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra” (Jo 8:7), ele desmonta a hipocrisia dos acusadores. Ele não nega a lei, mas revela que todos estão sob o mesmo juízo da graça. Um a um, eles se retiram.
O diálogo final é onde a restauração acontece. Jesus, o único com direito legal a acusar (por estar “sem pecado”), recusa-se a fazê-lo. Suas perguntas – “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” (Jo 8:10) – devolvem-lhe a voz e a agência. Ele a liberta da condenação (“Eu também não te condeno”) e a convoca para um novo futuro (“Vai e não peques mais”). Jesus a trata como sujeito de sua própria história, não como objeto do pecado ou da lei.
3. A Mulher Siro-Fenícia: Fé que Desafia Fronteiras (Mc 7:24-30)
Este é talvez o encontro mais chocante. Jesus está em território gentio. Uma mulher grega, siro-fenícia de nascença, aproxima-se dele. Ela é triplamente marginalizada: por ser mulher, por ser estrangeira (gentia) e por sua filha estar possessa por um espírito imundo.
A resposta inicial de Jesus parece severa e exclusivista: “Deixa que primeiro os filhos se saciem, porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (Mc 7:27). A metáfora é clara: os “filhos” são Israel, os “cachorrinhos” (kynaria, um diminutivo para animais de estimação) são os gentios.
Aqui, a mulher não se cala nem se ofende. Ela engaja Jesus num debate teológico, aceita a metáfora e a subverte: “Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos” (Mc 7:28). Ela argumenta que até as migalhas da graça de Deus são suficientes para operar a libertação. Jesus se deleita com esta resposta. Ele elogia sua sabedoria e sua fé e concede imediatamente a cura de sua filha.
Neste diálogo, Jesus não apenas cura, mas aprende e expande sua própria missão. A fé audaciosa desta mulher gentia força uma ampliação do conceito de “povo de Deus”. Ela é a primeira a receber plenamente o “pão” destinado aos filhos, tornando-se um arquétipo de todos os que, de fora, clamam pela graça inclusiva de Deus.
Conclusão: A Prática do Reino como Inclusão Radical
Estes três encontros formam um padrão consistente e revolucionário. Jesus age de forma constante ao:
1. Vê aquela que é invisível (a hemorrágica, a adúltera posta como espetáculo, a estrangeira).
2. Ouve e valida sua voz (o relato da hemorrágica, o diálogo com a adúltera, o debate com a siro-fenícia).
3. Toca e é tocado, transcendendo as barreiras da impureza ritual.
4. Restaura publicamente sua dignidade e seu lugar na comunidade.
A postura de Jesus revela um Deus que não está preso a sistemas de pureza que marginalizam, mas que age ativamente para desmantelá-los. O Reino que ele proclama é um espaço onde a identidade das pessoas não é definida por sua impureza, seu pecado ou sua etnia, mas pela fé e pela graça que as restaura à comunidade. Para a igreja contemporânea, o desafio permanece: será que nossas comunidades são espaços onde os ostracizados de hoje podem tocar, ser vistos, ouvidos e restaurados? A resposta será a medida de nossa fidelidade ao Deus que encontramos nestes textos.
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Referências
SCHÜSSLER FIORENZA, E. Às Margens: Jesus e as Mulheres no Evangelho de Marcos. In: Caminhos da Sabedoria: Uma introdução à interpretação bíblica. São Paulo: Loyola, 2007. p. 123-145.
WITTER, S. B. A Mulher no Mundo do Novo Testamento. São Paulo: Fonte Editorial, 2018.
MOLONEY, F. J. O Evangelho de João. São Paulo: Loyola, 2005. (Sacra Pagina).
MESTERS, C. A Mulher que Virou Irmã: A presença feminina nos evangelhos. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana (RIBLA), n. 15, p. 41-52, 1993.
NOLAN, A. Jesus antes do Cristianismo. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2008.

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