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Rute e Noemi: Uma Aliança de Amor e Sobrevivência Para Além da Heteronormatividade


Resumo: Este artigo realiza uma análise narrativa e teológica do livro de Rute, focando na relação entre a moabita Rute e sua sogra israelita, Noemi. Objetiva-se demonstrar que a aliança firmada entre as duas mulheres constitui o eixo central da narrativa, apresentando um modelo de família e compromisso que transcende os laços sanguíneos e os padrões heteronormativos tradicionais. Argumenta-se que a expressão “o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus” (Rt 1:16) funda uma nova unidade familiar, abençoada por Yahweh e culminando na restauração de ambas, desafiando assim leituras restritivas sobre o que constitui uma “família bíblica”.


Palavras-chave: Livro de Rute. Teologia Feminista. Aliança. Família. Homoafetividade. Hesed.


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Introdução: Uma Aliança que Redefine a Família


O livro de Rute, frequentemente romanticizado como uma simples história de amor ou uma peça genealógica para a linhagem davídica, é, na verdade, uma narrativa subversiva e corajosa. Em um contexto de fome, migração e luto, duas mulheres viúvas – uma idosa e estrangeira em sua própria terra, e outra jovem e estrangeira em terra alheia – tecem uma aliança de sobrevivência e amor que se ergue como um farol de esperança. Este artigo propõe uma leitura do texto que vai além da heteronormatividade, enxergando em Rute e Noemi não apenas uma relação de sogra e nora, mas a construção de um modelo familiar alternativo, abençoado por Deus e centrado no compromisso mútuo (hesed) em vez de estruturas patriarcais tradicionais.


1. O Contexto de Crise: A Morte do Projeto Heteropatriarcal


A narrativa inicia com a falência completa do modelo familiar tradicional. Um homem, Elimeleque, leva sua esposa Noemi e seus dois filhos para Moabe devido a uma fome. Lá, os homens da família morrem, deixando Noemi e suas duas noras, Rute e Orfa, sozinhas (Rt 1:1-5).


Neste contexto, a figura masculina – central para a identidade, sustento e proteção no patriarcado – é removida. As mulheres são deixadas em um vazio social e econômico: viúvas, sem filhos, estrangeiras e vulneráveis. É perante este colapso que Noemi urge suas noras a retornarem às suas famílias de origem, buscando a segurança que o sistema heteropatriarcal lhes negou (Rt 1:8-13). Orfa aceita, mas Rute resiste.


2. O Juramento de Rute: A Fundação de uma Nova Família


A resposta de Rute a Noemi (Rt 1:16-17) é um dos juramentos mais profundos e radicais das Escrituras. Ela não propõe uma mera companhia; ela propõe uma nova aliança existencial:


“Não insistas comigo para que te abandone e deixe de seguir-te. Porque aonde quer que fores, irei eu; e onde quer que pousares, pousarei eu; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu, e aí serei sepultada. Faça-me o SENHOR o que bem entender e mais ainda, porque só a morte me separará de ti.”


Este voto é tradicionalmente proferido em cerimônias de matrimónio heterossexual, mas no texto bíblico, é dirigido por uma mulher a outra. Rute desloca sua lealdade final de sua família de sangue e deus nacional (Moabe) para Noemi, seu povo e seu Deus. Ela funda, através de uma escolha deliberada, uma nova unidade familiar. A estudiosa feminista Phyllis Trible (2001, p. 194) classifica este discurso como “uma declaração de amor incondicional”, um “casamento de almas” que estabelece um lar entre duas mulheres.


3. A prática do ‘Hesed’ e a Subversão dos Modelos


O termo hebraico hesed – frequentemente traduzido como “amor leal”, “misericórdia” ou “bondade” – é a chave hermenêutica do livro. Boaz reconhece que Rute pratica hesed com Noemi (Rt 3:10). No entanto, o hesed mais profundo não é o de Boaz, mas o de Rute para com Noemi.


É a aliança entre elas que impulsiona a narrativa e torna possível a restauração. Rute assume o papel masculino de “resgatadora” ao ir aos campos (Rt 2:2); Noemi assume o papel de estrategista, instruindo Rute de forma ousada (Rt 3:1-4). Juntas, elas subvertem os papéis de gênero para garantir sua sobrevivência mútua. A união com Boaz, longe de ser o ápice romântico, é a solução estratégica e legal (o levirato) que valida e dá continuidade à família já constituída por Rute e Noemi. O filho que nasce é colocado no colo de Noemi, e as mulheres da vizinhança proclamam: “Para Noemi nasceu um filho!” (Rt 4:17), reconhecendo que a criança é, antes de tudo, o fruto e a herdeira da aliança entre as duas mulheres.


A teóloga Deryn Guest (2012, p. 87) argumenta:


“A narrativa de Rute permite uma leitura queer que vê a relação entre as duas mulheres como o casamento central da história. O compromisso de Rute desafia as fronteiras da nacionalidade e da sexualidade normativa, apresentando um modelo de amor e lealdade que a comunidade de fé é chamada a celebrar, e não a ignorar ou a temer.”


Conclusão: Um Legado de Amor Incondicional


O livro de Rute termina com uma genealogia que liga esta história de amor e sobrevivência entre mulheres à linhagem do rei Davi e, consequentemente, de Jesus Cristo (Mt 1:5). Isso sinaliza que a história da salvação é construída também através de modelos de família não tradicionais, de alianças inesperadas e do hesed praticado à margem das normas.


Rute e Noemi não precisam se encaixar em categorias modernas para que sua história ressoe profundamente com a experiência LGBTQIAP+. Elas oferecem um arquétipo poderoso: o de que a bênção de Deus não está confinada a estruturas familiares rígidas. A bênção repousa sobre o compromisso de amor leal, sobre a escolha de fazer comunidade, sobre a coragem de dizer “o teu povo será o meu povo” e de construir, juntas, um futuro onde antes só havia desespero. A família de Rute e Noemi é, acima de tudo, uma família escolhida – e é precisamente nesta escolha que reside sua força e sua santidade.


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Referências 

GUEST, D. Beyond Feminist Biblical Studies. Sheffield: Sheffield Phoenix Press, 2012.


MUSSKOPF, A. S. Uma brecha no armário: teologia gay no Brasil. São Paulo: Editora Garçoni, 2012.


TRIBLE, P. Deus e a Retórica da Sexualidade. São Paulo: Fonte Editorial, 2001.


CARDOSO, N. Rute: A estrangeira que nos ensina a viver. In: A Bíblia e as Mulheres: Livros Históricos. São Paulo: Fonte Editorial, 2018. p. 55-70.


WEST, M. Ruth: A Reading with Resonance for Our Time. In: The Bible and the Hermeneutics of Liberation. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2004. p. 45-62.

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